Abertura:
The Noose – The Offspring
1.3
– Mudança de Planos
Planalto
de El Mes, quadrante 08, 4 de Abril de 1009, 11:40.
Um trio estava parado sobre o penhasco a sudeste do prédio do
Instituto Kiel Hyre. Havia uma boa vista do prédio inteiro dali, um
lugar normalmente isolado da civilização e cercado pela natureza,
em especial o som dos Grand Pecos que habitam o local.
O trio era bem distinto. Dois homens altos e musculosos, de longos
cabelos vermelhos incandescentes, um deles solto ao vento e o outro
preso em dreadlocks, ambos portando enormes espadas, tão grandes
quanto seus corpos, embainhadas em suas costas. Eram visualmente
extremamente parecidos, entregando o fato de que eram irmãos gêmeos.
A terceira membra, uma mulher com cabelos louros amarrados em um rabo
de cavalo, vestes típicos de uma Alquimista e olhos de cor violeta,
observava a dupla discutindo.
– Eu não estou gostando disso. –
Disse o homem com o cabelo de dreadlocks.
– O que não está certo pra
você, Palace? – O homem de cabelos soltos apontou para o prédio
do Instituto, logo abaixo do penhasco. – As ordens são simples.
Nós entramos na Fábrica de Robôs, catamos a pirralha, esfolamos o
couro do Pikachu e vamos pra casa tomar umas doses. Até um macaco
consegue entender a missão.
– E você concorda com isso,
Valna? – Palace estava indagando seu irmão. – Estamos falando de
trazer uma porra de uma criança
para a causa da Legião!
– Exceto que ela não é uma
criança, ela é apenas uma marionete fabricada com carne e silicone.
– A Alquimista nem se incomodava em se virar para falar com os dois
irmãos discutindo, apenas brincando com a lixa de unhas. – E
talvez metal. E mais Mana em seu corpo do que qualquer um poderia
conseguir aguentar carregar. Ou pelo menos é isso o que a Edith diz.
Palace estava obviamente incomodado pelas palavras de sua parceira.
Seu irmão Valna, porém, achava tudo aquilo engraçado. – Então,
Vera. O que você me diz disso tudo? Acha que ela vai quebrar que nem
aconteceu com os clones do Senhor Herói e do Fio Desencapado?
Valna estava se referindo a Vistara, clone de Leafar morto em 1004, e
Omni Ferus, um clone de Cal que atualmente estava trabalhando com a
Legião. Vera já havia visto o clone de Cal pessoalmente, mas não
gostava do que estava no rosto dele. Palace ouvia, cada vez mais
incrédulo, a discussão.
Houve um tempo em que os gêmeos Atros eram extremamente
sincronizados. Sempre havia sido assim, especialmente desde que o
incidente de Hugel onde seus pais morreram forçaram os dois a se
virarem sozinhos, preferindo se tornar ladrões de rua a serem
separados por lares adotivos em algum orfanato. Mas algo mudou
seriamente quando se tornaram adultos e eles foram eventualmente
recrutados por Dimitri Markolevich, um dos Generais da Legião. Valna
era mais do que atento às lições de Dimitri, enquanto Palace fazia
de tudo para continuar sendo verdadeiro consigo mesmo. Eventualmente,
isso o levou a ficar cada vez mais distante do irmão.
O que o levou de volta a aquele momento, discutindo em um pequeno
penhasco a menos de quinhentos metros do Instituto Kiel Hyre.
– Eu apenas quero acabar com essa
porcaria e seguir para a próxima missão. – Respondeu Vera, num
tom quase inerte.
– Ah é, eu lembrei, você não
gosta de trabalhar conosco. É o que acontece quando você é viciada
em apostas e de repente decide que apostar sua própria bunda pro
Dimitri é uma… – Valna foi prontamente interrompido pela ação
de Vera, que pulou ferozmente para cima do Legionário com sua mão
direita carregada de eletricidade, derrubando ele e o mantendo no
chão.
– Eu sugiro que feche a sua
matraca antes que eu eletrocute você ou use o ferrão da minha forma
máxima pra empalar você. – Ameaçou Vera em um tom feroz. Valna,
porém, deu um sorriso sarcástico, já reparando seu irmão Palace
com a sua enorme Zanbatô apontada para ela.
– Que tal tirar esse seu belo
corpo de cima de mim, abelhinha? Antes que meu irmão mostre a você
o corte ideal pra carne de inseto. – Valna sorria abertamente
enquanto proferia sua provocação.
Vera quietamente saiu de cima do Atros mais velho, e o mais novo
re-embainhou sua espada. Palace já parecia extremamente descontente
com a sequência de eventos. – Nós já perdemos tempo demais.
Vamos.
Palace quietamente começou a andar na direção do penhasco, parou a
centímetros da borda, pegou impulso e saltou à frente, na direção
do prédio do Instituto. Valna, ao se levantar, mantendo seu sorriso,
avançou na mesma direção.
Vera conseguiu sentir naquele momento a tensão acumulando ao redor
dela. Valna Atros, o irmão mais velho, debochado, sádico e
violento, e Palace Atros, o mais novo, sério, calmo e compassivo. Os
dois estavam em colisão ali, e ela agora sabia que havia sido
mandada ali por Dimitri, para ficar no meio do fogo cruzado entre os
dois. E ela não tinha escolha a não ser seguir o roteiro.
Foi com aquilo em mente que ela apenas caminhou para o penhasco e
pulou, acompanhando seus parceiros-barra-carrascos.
A trilha de destroços mecânicos deixada pela Fábrica de Robôs
abaixo do Instituto era fantástica. Alizas, Alicel, Aliots. Cabeças
arrancadas, braços e pernas decepados, trapos de roupa. Se fossem
humanos ali, o nível de carnificina seria suficiente para parecer um
filme de terror slasher.
O som de gritos de outra Aliza era ouvido enquanto a robô era
rasgada na altura da cintura por uma Claymore. Logo em seguida,
vários outros sons, de metal colidindo, explosões e eletricidade
ecoavam pelos corredores do primeiro andar da Fábrica.
Esse era o som que Cal fazia atravessando o local. Ele não queria
nem saber o que exatamente estava enfrentando ou mesmo procurando;
ele apenas jogava sua espada e seus poderes contra a primeira coisa
que aparecesse na frente dele. Sem o menor cuidado ou consideração.
Foi assim por quinze minutos enquanto Cal revirava o primeiro andar e
já considerava vasculhar o segundo. Quando ele se aproximou do
elevador que levava ao segundo andar, ele finalmente tinha uma noção
do que estava procurando, ao notar a caneta no chão, um instrumento
bastante incomum para o local em que ele se encontrava.
Ele agachou, ficou olhando para a caneta por um tempo. Deixou a
cabeça esvaziar no ambiente que ele havia acabado de limpar com sua
violência. Pôs a mão na caneta, fechou os olhos e começou a se
concentrar.
Cal estava usando o que havia aprendido com Johan, usando traços da
Mana de alguém para rastrear a pessoa. Se aquela caneta estava ali,
ela havia sido trazida por alguém, de preferência um ser de carne e
osso, que era o que seu alvo supostamente era.
Não levou mais do que dez segundos até que Cal encontrasse o que
queria, se levantando imediatamente. – Achei você.
Cal caminhou calmamente para o local onde estava sentindo a Mana de
uma pessoa viva. Passou batido por um grupo de aventureiros que
estava treinando ali, se perguntando como seu alvo ficou perdido por
dias na Fábrica sem que ninguém o encontrasse. Ao se afastar do
grupo, Cal percebeu o grupo de Alizas, Alicel e Aliot avançando na
direção dele. Correu para cima dos robôs, deslizou por baixo deles
e prontamente desferiu um Impacto Explosivo carregado com sua própria
eletricidade, colocando ditos robôs em curto-circuito. Ao levantar,
Cal apenas deu um olhar de canto para seus inimigos e disparou um
Trovão de Júpiter, jogando o primeiro do grupo como uma bola de
boliche para cima dos outros, enquanto retomava sua calma caminhada.
Nenhuma palavra era proferida ou pensada por ele naquele momento. Ele
só queria encontrar a garota, cortar a cabeça dela fora com a
espada e sair andando. Isso resolveria facilmente o problema dele
antes que começasse de verdade, e ainda daria um gosto fortemente
amargo na boca de quem tivesse interesse nela.
Finalmente chegou ao local, uma pilha de caixas que ele facilmente
tirou do caminho, quase que usando força total e assustando a menina
abaixo dela. Ela gritava em horror, implorando pra não encostarem
nela.
E então, por algum motivo, o olhar desinteressado mudou.
Cabelos curtos e olhos castanhos combinando com eles. O uniforme sujo
de inverno de Kiel Hyre mostrava que a menina de fato estava ali por
dias. Não aparentava ter mais do que quinze anos, fisicamente.
Estava encolhida o máximo que podia no canto no qual havia se
escondido, com uma óbvia expressão de desespero.
Naquele momento, Cal sabia o que
queria fazer, mas seu corpo congelou. Estava lá para matar a menina,
mas na hora da verdade, não conseguia a energia para sequer sacar
sua espada. Apenas olhava para a garota, estático, sem saber o que
fazer ou como reagir. A menina, por vez, apenas se mantinha onde
estava, mantendo a mesma expressão apavorada e não entendendo nada.
E então, seu corpo agiu da única forma que ele conseguiria imaginar
se visse alguém naquela situação: Ele estendeu a mão. E a menina
instintivamente reagiu:
– FIQUE LONGE DE MIM! – Gritou
ela, tentando se encolher mais do que já estava naquele canto,
visivelmente encurralada.
– Por mim beleza, mas eu tenho
que te tirar daqui de um jeito ou de outro. – Cal avançou,
agarrando a menina pela cintura e tirando ela daquele canto. A garota
começou a gritar e se chacoalhar nos braços do Cavaleiro, que
apenas a ergueu por cima de seus ombros para carregá-la. – E pra
constar, eu sou 100% orgânico, diferente do material que tá te
caçando por aqui.
Naquele momento, a menina parou de
se contorcer e Cal conseguiu descer ela tranquilamente ao chão. O
louro foi então surpreendido de novo quando a menina abraçou ele,
apertando o rosto contra o peito dele e chorando. Cal, por sua vez,
estava completamente confuso. Tinha vindo ali para matar a menina, e
agora estava disposto a tirar ela da Fábrica de Robôs. Ele mesmo
queria entender o que estava se passando por sua própria cabeça
naquele momento.
“No que eu estou me metendo...”,
pensava ele enquanto desgrudava a menina dele e se preparava para
sair com ela do local.
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E lá vamos nós pro momento que iniciou uma cadeia inteira de eventos na vida de Cal Rasen. Quem leu a Jornada original deve ter notado que eu fiz mudanças enormes no roteiro. Diminuí muita coisa enquanto adicionei elementos novos. Não foi pra tornar a história mais atual; foi pra melhorar a narrativa e mostrar que eu melhorei no que tange à minha capacidade de elaborar um roteiro.
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