Abertura:
The Noose – The Offspring
1.2
– A Proposta
Juno,
3 de Abril de 1009, 12:05.
Alguns dias haviam se passado. Cal, cansado de tentar entender o que
havia acontecido no Planalto de El Mes, havia resolvido apenas
esquecer o que tinha acontecido. Estava num bar em Juno, sentado em
um balcão diante de um copo com vodka, mantendo sua mente vazia e
distraída do stress recente.
Um homem de terno então se sentou ao lado dele. Cal não pôde
deixar de reparar nele. Cabelos pretos, curtos, barba bem feita,
olhos castanhos escuros. A voz grave indicando que ele já passava
dos trinta chamou pela atenção do Cavaleiro.
– Você é o homem conhecido por
Cal Rasen?
– …E se eu for? – Cal
desconfiava. Não era sem razão. Ele não gostava de andar perto de
pessoas vestidas de forma executiva. Não por seu passado em Einbech,
como um garoto pobre contra os ricos esnobes da poluída Einbroch,
mas por sua experiência recente com homens de jaleco em Lighthalzen.
Mais precisamente, os três meses que passou preso na Instalação de
Regenschrim como um rato de laboratório num tubo de cultivação no
ano anterior.
– Eu tenho uma coisa que só o
falado Cavaleiro do Relâmpago pode fazer. – Disse o homem de
terno.
– Cavaleiro do Relâmpago. Ele já
tá recebendo apelidos? – Respondeu Cal, agindo como se fosse uma
pessoa diferente.
– Não apenas o de Barão. No
idioma natal dele esse apelido soa até apropriado. Blitzritter.
– A mente de Cal fixou na palavra que lhe foi citado em sua língua
natal, o idioma usado na República de Schwarzvald. Era óbvio que o
homem também era um nativo da República. – Você obviamente é
Cal Rasen. E também obviamente não confia em mim. Está em seu
direito.
– O último cara de terno que eu
vi me sedou e me enfiou em um tubo de cultivação por três meses. A
essa altura do campeonato você poderia me agradecer por não ter te
decapitado neste exato momento. – Respondeu Cal, de forma seca. –
O emblema que eu vejo no cartão escondido nesse seu paletó é o da
Rekenber. Você é um cientista e teve a bela ideia de procurar por
um cara que está matando
cientistas.
O homem deu um sorriso tranquilo, como se estivesse seguro de que Cal
não faria nada a ele. Cal, por outro lado, estava esperando qualquer
coisa acontecer. Qualquer movimento errado, e o Cavaleiro
simplesmente arremessaria o copo de vodka no rosto dele, usando sua
eletricidade para gerar uma ignição que pudesse botar fogo no homem
encharcado de álcool, segundo sua imaginação.
– Nem todos na Corporação
querem um pedaço de você, Rasen. – Disse o homem. – Alguns
inclusive precisam de sua ajuda.
– Procure ajuda de outra pessoa.
De uma que não esteja planejando te matar na primeira coisa errada
que acontecer. – Respondeu Cal, levantando-se do banco e deixando a
gorjeta para o atendente do bar. – E considere-se sortudo de ainda
estar vivo.
Cal deixou o bar sem dizer mais nada, deixando o cientista sem muito
a dizer. Este, por sua vez, aguardou por um minuto, pegou seu celular
no bolso do paletó, pronto para iniciar uma conversa com outra
pessoa.
Cal estava preparando suas bagagens de novo do lado de fora de um
hotel. Cerca de meia hora havia se passado desde sua discussão com o
cientista da Rekenber. Cal estava verificando os conteúdos de sua
mochila quando ele percebeu um Alquimista de óculos e cabelos
castanhos se aproximar. Cal não se virou para ver quem era, mas ao
se concentrar por um instante, podia sentir a Mana da pessoa e
identificá-la rapidamente.
– Noah, espero que você tenha um
bom motivo pra estar me procurando. – Disse o Cavaleiro louro.
Sentir a Mana de uma pessoa é um processo simples. Todo ser vivo
possui Mana, manifestação de energia espiritual e mágica que
concede vida a tudo. Cada pessoa possui uma assinatura própria de
energia, seja uma cor específica ou a forma como a Mana se manifesta
do corpo de uma pessoa. Cal aprendeu de Johan a sentir Mana alheia e
identificar pessoas através de tal energia.
Cal Rasen e Noah Spikier já eram
velhos conhecidos. Noah foi um dos primeiros membros da Ordem do
Trovão. Esteve com Cal em alguns momentos importantes. Foi também o
responsável por trazer Hanna Hendstron de volta à vida quando nada
mais foi capaz. Mas apesar de toda a experiência dos dois juntos,
Noah ainda era uma pessoa distante e mantinha seu trabalho quase que
em segredo de Cal. Cal também sabia que Noah estava envolvido com a
Rekenber, devido ao fato do material que trouxe Hanna de volta ter
vindo da empresa.
– Eu estou aqui porque você
dispensou o outro cara. – Disse o Alquimista.
– Sério mesmo? Vai mesmo me
pedir pra fazer um favor à Corporação? Depois do brilhante fato de
que eu quase fui experimentado por eles? – Cal se virou para Noah,
deixando uma expressão séria. Era óbvio que Cal não estava
disposto a cooperar. A experiência dele com a Rekenber no ano
anterior havia sido o bastante para que ele realmente tivesse
assuntos com a Corporação.
– Não é um assunto da
Corporação. É um assunto meu. – Respondeu Noah, ajeitando os
óculos. – Tem a ver com a pesquisa que eu fiz em torno da técnica
usada para trazer a Hanna de volta.
Cal manteve-se mudo diante das palavras do companheiro de clã,
cruzando os braços e esperando que ele continuasse sua explicação.
– A pesquisa me levou a um novo
programa de criação de Construtos que a Rekenber quer que eu teste.
Por ordens deles, eu deixei o protótipo para testes de interação
social no Instituto Kiel Hyre. Mas tem um problema. O protótipo
conseguiu entrar na Fábrica de Robôs, de alguma forma.
– … – Cal bufou em tom de
zombaria ao ouvir a história, com um sorriso sarcástico. –
...Você realmente está me pedindo pra me enfiar na Fábrica de
Robôs pra correr atrás de um Construto que pode ser tão ruim ou
até pior que o Omni Ferus, em prol de uma operação da mesma
empresa que me manteve num tubo de cultivação por três meses e por
pouco não realizou experimentos dignos dos Seis Grandes? Noah, me
deixa perguntar uma coisa: Que tipo de droga você está usando?
– Eu sei que parece ridículo. –
Cal interrompeu Noah quase que instantaneamente.
– Não parece ridículo, isso É
ridículo. Você parece estar fazendo parte de algum tipo de armação
e tá incrivelmente visível. – Cal parecia se recusar a se
convencer da ideia, dada o tom de voz que cresceu do começo de seu
discurso. – Noah, me dá um bom motivo pra eu topar me jogar de
cabeça no que pode ser uma armadilha fantástica preparada
especialmente pra mim.
Noah então sacou uma pasta de sua bolsa e a entregou a Cal. Cal
começou a verificar os conteúdos da pasta. Eram informações
totais sobre seu projeto.
– O projeto que a Rekenber quer
de mim atende por Construto V, uma resposta ao que Kiehl fez
recentemente com seu próprio corpo. A Rekenber também parece estar
envolvida em algum negócio estranho, eu tenho ouvido conversas de
que a Legião está metida nisso.
Noah havia finalmente conseguido a atenção de Cal. A Legião era um
grupo de vilões capazes de canalizar essências de Monstros
Veneravelmente Poderosos (MVPs) em seus corpos e usar as habilidades
e características de ditos monstros. Edith Stein, a mãe de Hanna e
responsável pela manobra que forçou Noah a usar sua própria
experiência para reviver a garota, era a líder do grupo. Para Cal,
o assunto com o grupo de vilões que agora colidia com a Ordem do
Trovão era pessoal. Saber que eles estavam metidos em alguma coisa
com a Rekenber era sinal de que ele tinha que agir.
Noah prosseguiu com a explicação. – Quanto a esperar por
armadilhas, talvez você esteja certo, Cal. A Rekenber de fato não
largou mão de você depois dos eventos de Setembro passado. É por
isso que, se você aceitar a missão, eu recomendo que leve a garota
com você, para longe do alcance da Corporação.
– … Espera, como é? – Cal
voltou seus olhos para Noah, e então para a foto diante dele,
retirada da pasta. Uma menina de cabelos e olhos castanhos, usando o
uniforme de inverno de Kiel Hyre, era destacada na foto entre as
outras crianças. Cal havia juntado dois e dois e deduzido que ela
era a Construto ao qual Noah estava se referindo.
De um lado, Cal não concordava com a ideia de resgatar uma
Construto, mesmo se a ideia fosse atrasar completamente a Corporação.
De outro, era a chance dele de interceptar uma jogada da Legião e
estar por uma vez a um passo à frente do inimigo.
– Cal, se aceitar isso, você
oficialmente aceita uma missão de risco para você, isso você mesmo
já percebeu. Mas do jeito que as coisas estão, eu não posso deixar
essa garota nas mãos da Rekenber… Ou da Legião. A menina possui
um potencial gigante, mas não é usando ela como uma arma ou
manipulando ela como pessoa que esse potencial vai aparecer.
– O que quer dizer com isso? –
Cal havia sentido o tom pessoal na voz, bem como a expressão de Noah
em seu comentário recente.
– Que você não tem mais família
desde o ano passado. Então, salvar ela vai acabar te ajudando de
alguma forma. – Respondeu o Alquimista, disparando uma expressão
feroz no Cavaleiro.
– Eu não preciso trocar minha
família por um robô! – Respondeu ferozmente o Cavaleiro, ofendido
pela afirmação de Noah.
Uma pausa se deu entre os dois. Os olhos de Cal, furiosos, se
encontravam no olhar tranquilo por trás dos óculos de Noah. E então
Cal retomou a palavra. – Feito. Você conseguiu o seu soldado.
Noah conseguia notar que algo estava seriamente diferente nos olhos
de Cal. E estava assim desde a Destruição de Morroc. Noah resolveu
não insistir, confiando que qualquer que fosse o plano de Cal, ele
faria a coisa certa no fim. – A menina atende por Irma Aloisius. É
tão dócil quanto uma flor, isso é, se ainda estiver aguentando o
que está na Fábrica. Você é oficialmente a única chance dela
ali.
– Se qualquer coisa der errado
ali, Noah… – Cal mantinha o olhar sério. – … Dessa vez eu
vou me certificar de que eu vou sair da situação. E quando eu
chegar em Lighthalzen, será como se a Peste Negra tivesse
contaminado a cidade.
– Claro como cristal. – Noah
respondeu, mantendo toda a calma do mundo. – De qualquer jeito, eu
já alertei você sobre o que esperar dali. Especialmente sobre a
Rekenber.
Noah recolheu suas coisas, deixando Cal apenas com uma das fotos da
menina. – Tome cuidado ali, Cal.
Conforme Noah dava as costas e ia embora, Cal permanecia olhando para
a foto. A menina de cabelos castanhos e uniforme escolar. Para Noah,
uma peça importante que precisava ser tirada de mãos erradas.
Para Cal, alguém que iria morrer assim que ele a encontrasse.
Era isso o que Cal estava realmente disposto a fazer no momento.
Estragar o dia da Rekenber, da Legião e até mesmo do Noah, apenas
para manter o mundo livre de “criaturas” como a “menina” que
o cientista nomeou como Irma.
– Vai ser um dia divertido.
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Sim, eu vou mandar um capítulo por dia do Livro 1 da Jornada. Daí, vou ver se começo a trabalhar no Livro 2 ou em outras coisas. Mas é, eu tou mostrando atividade por aqui.
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