sábado, 18 de novembro de 2017

Jornada de Cal Rasen - Capítulo 2 - A Proposta

Abertura: The Noose – The Offspring



1.2 – A Proposta


Juno, 3 de Abril de 1009, 12:05.

Alguns dias haviam se passado. Cal, cansado de tentar entender o que havia acontecido no Planalto de El Mes, havia resolvido apenas esquecer o que tinha acontecido. Estava num bar em Juno, sentado em um balcão diante de um copo com vodka, mantendo sua mente vazia e distraída do stress recente.

Um homem de terno então se sentou ao lado dele. Cal não pôde deixar de reparar nele. Cabelos pretos, curtos, barba bem feita, olhos castanhos escuros. A voz grave indicando que ele já passava dos trinta chamou pela atenção do Cavaleiro.

– Você é o homem conhecido por Cal Rasen?

– …E se eu for? – Cal desconfiava. Não era sem razão. Ele não gostava de andar perto de pessoas vestidas de forma executiva. Não por seu passado em Einbech, como um garoto pobre contra os ricos esnobes da poluída Einbroch, mas por sua experiência recente com homens de jaleco em Lighthalzen. Mais precisamente, os três meses que passou preso na Instalação de Regenschrim como um rato de laboratório num tubo de cultivação no ano anterior.

– Eu tenho uma coisa que só o falado Cavaleiro do Relâmpago pode fazer. – Disse o homem de terno.

– Cavaleiro do Relâmpago. Ele já tá recebendo apelidos? – Respondeu Cal, agindo como se fosse uma pessoa diferente.

– Não apenas o de Barão. No idioma natal dele esse apelido soa até apropriado. Blitzritter. – A mente de Cal fixou na palavra que lhe foi citado em sua língua natal, o idioma usado na República de Schwarzvald. Era óbvio que o homem também era um nativo da República. – Você obviamente é Cal Rasen. E também obviamente não confia em mim. Está em seu direito.

– O último cara de terno que eu vi me sedou e me enfiou em um tubo de cultivação por três meses. A essa altura do campeonato você poderia me agradecer por não ter te decapitado neste exato momento. – Respondeu Cal, de forma seca. – O emblema que eu vejo no cartão escondido nesse seu paletó é o da Rekenber. Você é um cientista e teve a bela ideia de procurar por um cara que está matando cientistas.

O homem deu um sorriso tranquilo, como se estivesse seguro de que Cal não faria nada a ele. Cal, por outro lado, estava esperando qualquer coisa acontecer. Qualquer movimento errado, e o Cavaleiro simplesmente arremessaria o copo de vodka no rosto dele, usando sua eletricidade para gerar uma ignição que pudesse botar fogo no homem encharcado de álcool, segundo sua imaginação.

– Nem todos na Corporação querem um pedaço de você, Rasen. – Disse o homem. – Alguns inclusive precisam de sua ajuda.

– Procure ajuda de outra pessoa. De uma que não esteja planejando te matar na primeira coisa errada que acontecer. – Respondeu Cal, levantando-se do banco e deixando a gorjeta para o atendente do bar. – E considere-se sortudo de ainda estar vivo.

Cal deixou o bar sem dizer mais nada, deixando o cientista sem muito a dizer. Este, por sua vez, aguardou por um minuto, pegou seu celular no bolso do paletó, pronto para iniciar uma conversa com outra pessoa.




Cal estava preparando suas bagagens de novo do lado de fora de um hotel. Cerca de meia hora havia se passado desde sua discussão com o cientista da Rekenber. Cal estava verificando os conteúdos de sua mochila quando ele percebeu um Alquimista de óculos e cabelos castanhos se aproximar. Cal não se virou para ver quem era, mas ao se concentrar por um instante, podia sentir a Mana da pessoa e identificá-la rapidamente.

– Noah, espero que você tenha um bom motivo pra estar me procurando. – Disse o Cavaleiro louro.

Sentir a Mana de uma pessoa é um processo simples. Todo ser vivo possui Mana, manifestação de energia espiritual e mágica que concede vida a tudo. Cada pessoa possui uma assinatura própria de energia, seja uma cor específica ou a forma como a Mana se manifesta do corpo de uma pessoa. Cal aprendeu de Johan a sentir Mana alheia e identificar pessoas através de tal energia.

Cal Rasen e Noah Spikier já eram velhos conhecidos. Noah foi um dos primeiros membros da Ordem do Trovão. Esteve com Cal em alguns momentos importantes. Foi também o responsável por trazer Hanna Hendstron de volta à vida quando nada mais foi capaz. Mas apesar de toda a experiência dos dois juntos, Noah ainda era uma pessoa distante e mantinha seu trabalho quase que em segredo de Cal. Cal também sabia que Noah estava envolvido com a Rekenber, devido ao fato do material que trouxe Hanna de volta ter vindo da empresa.

– Eu estou aqui porque você dispensou o outro cara. – Disse o Alquimista.

– Sério mesmo? Vai mesmo me pedir pra fazer um favor à Corporação? Depois do brilhante fato de que eu quase fui experimentado por eles? – Cal se virou para Noah, deixando uma expressão séria. Era óbvio que Cal não estava disposto a cooperar. A experiência dele com a Rekenber no ano anterior havia sido o bastante para que ele realmente tivesse assuntos com a Corporação.

– Não é um assunto da Corporação. É um assunto meu. – Respondeu Noah, ajeitando os óculos. – Tem a ver com a pesquisa que eu fiz em torno da técnica usada para trazer a Hanna de volta.

Cal manteve-se mudo diante das palavras do companheiro de clã, cruzando os braços e esperando que ele continuasse sua explicação.

– A pesquisa me levou a um novo programa de criação de Construtos que a Rekenber quer que eu teste. Por ordens deles, eu deixei o protótipo para testes de interação social no Instituto Kiel Hyre. Mas tem um problema. O protótipo conseguiu entrar na Fábrica de Robôs, de alguma forma.

– … – Cal bufou em tom de zombaria ao ouvir a história, com um sorriso sarcástico. – ...Você realmente está me pedindo pra me enfiar na Fábrica de Robôs pra correr atrás de um Construto que pode ser tão ruim ou até pior que o Omni Ferus, em prol de uma operação da mesma empresa que me manteve num tubo de cultivação por três meses e por pouco não realizou experimentos dignos dos Seis Grandes? Noah, me deixa perguntar uma coisa: Que tipo de droga você está usando?

– Eu sei que parece ridículo. – Cal interrompeu Noah quase que instantaneamente.

– Não parece ridículo, isso É ridículo. Você parece estar fazendo parte de algum tipo de armação e tá incrivelmente visível. – Cal parecia se recusar a se convencer da ideia, dada o tom de voz que cresceu do começo de seu discurso. – Noah, me dá um bom motivo pra eu topar me jogar de cabeça no que pode ser uma armadilha fantástica preparada especialmente pra mim.

Noah então sacou uma pasta de sua bolsa e a entregou a Cal. Cal começou a verificar os conteúdos da pasta. Eram informações totais sobre seu projeto.

– O projeto que a Rekenber quer de mim atende por Construto V, uma resposta ao que Kiehl fez recentemente com seu próprio corpo. A Rekenber também parece estar envolvida em algum negócio estranho, eu tenho ouvido conversas de que a Legião está metida nisso.

Noah havia finalmente conseguido a atenção de Cal. A Legião era um grupo de vilões capazes de canalizar essências de Monstros Veneravelmente Poderosos (MVPs) em seus corpos e usar as habilidades e características de ditos monstros. Edith Stein, a mãe de Hanna e responsável pela manobra que forçou Noah a usar sua própria experiência para reviver a garota, era a líder do grupo. Para Cal, o assunto com o grupo de vilões que agora colidia com a Ordem do Trovão era pessoal. Saber que eles estavam metidos em alguma coisa com a Rekenber era sinal de que ele tinha que agir.

Noah prosseguiu com a explicação. – Quanto a esperar por armadilhas, talvez você esteja certo, Cal. A Rekenber de fato não largou mão de você depois dos eventos de Setembro passado. É por isso que, se você aceitar a missão, eu recomendo que leve a garota com você, para longe do alcance da Corporação.

– … Espera, como é? – Cal voltou seus olhos para Noah, e então para a foto diante dele, retirada da pasta. Uma menina de cabelos e olhos castanhos, usando o uniforme de inverno de Kiel Hyre, era destacada na foto entre as outras crianças. Cal havia juntado dois e dois e deduzido que ela era a Construto ao qual Noah estava se referindo.

De um lado, Cal não concordava com a ideia de resgatar uma Construto, mesmo se a ideia fosse atrasar completamente a Corporação. De outro, era a chance dele de interceptar uma jogada da Legião e estar por uma vez a um passo à frente do inimigo.

– Cal, se aceitar isso, você oficialmente aceita uma missão de risco para você, isso você mesmo já percebeu. Mas do jeito que as coisas estão, eu não posso deixar essa garota nas mãos da Rekenber… Ou da Legião. A menina possui um potencial gigante, mas não é usando ela como uma arma ou manipulando ela como pessoa que esse potencial vai aparecer.

– O que quer dizer com isso? – Cal havia sentido o tom pessoal na voz, bem como a expressão de Noah em seu comentário recente.

– Que você não tem mais família desde o ano passado. Então, salvar ela vai acabar te ajudando de alguma forma. – Respondeu o Alquimista, disparando uma expressão feroz no Cavaleiro.

– Eu não preciso trocar minha família por um robô! – Respondeu ferozmente o Cavaleiro, ofendido pela afirmação de Noah.

Uma pausa se deu entre os dois. Os olhos de Cal, furiosos, se encontravam no olhar tranquilo por trás dos óculos de Noah. E então Cal retomou a palavra. – Feito. Você conseguiu o seu soldado.

Noah conseguia notar que algo estava seriamente diferente nos olhos de Cal. E estava assim desde a Destruição de Morroc. Noah resolveu não insistir, confiando que qualquer que fosse o plano de Cal, ele faria a coisa certa no fim. – A menina atende por Irma Aloisius. É tão dócil quanto uma flor, isso é, se ainda estiver aguentando o que está na Fábrica. Você é oficialmente a única chance dela ali.

– Se qualquer coisa der errado ali, Noah… – Cal mantinha o olhar sério. – … Dessa vez eu vou me certificar de que eu vou sair da situação. E quando eu chegar em Lighthalzen, será como se a Peste Negra tivesse contaminado a cidade.

– Claro como cristal. – Noah respondeu, mantendo toda a calma do mundo. – De qualquer jeito, eu já alertei você sobre o que esperar dali. Especialmente sobre a Rekenber.

Noah recolheu suas coisas, deixando Cal apenas com uma das fotos da menina. – Tome cuidado ali, Cal.

Conforme Noah dava as costas e ia embora, Cal permanecia olhando para a foto. A menina de cabelos castanhos e uniforme escolar. Para Noah, uma peça importante que precisava ser tirada de mãos erradas.

Para Cal, alguém que iria morrer assim que ele a encontrasse.

Era isso o que Cal estava realmente disposto a fazer no momento. Estragar o dia da Rekenber, da Legião e até mesmo do Noah, apenas para manter o mundo livre de “criaturas” como a “menina” que o cientista nomeou como Irma.


– Vai ser um dia divertido.

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Sim, eu vou mandar um capítulo por dia do Livro 1 da Jornada. Daí, vou ver se começo a trabalhar no Livro 2 ou em outras coisas. Mas é, eu tou mostrando atividade por aqui.

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