- Como nenhum de nós viu isso?
Era Leafar questionando Cal conforme a conversa andava. Alguns minutos de conversa, e os dois tinham discutido sobre forçar o Dragão a retornar a Rune-Midgard, as circunstâncias de tais eventos, e eventualmente chegaram no assunto principal: a menina de cabelos castanhos.
- Cal, como você tem certeza de que ela pode ser, você sabe... como a Freya? - Indagou Leafar.
- Só sei o que o Johan sabe. - Respondeu o Blitzriter. - E o que ele sabe é que uma menina com aparência quase igual à da Freya está por aí tem uns três anos, numa escola cara de Geffen. Ela foi encontrada sozinha, não tinha família, o diretor da escola a acolheu. Se pararmos pra pensar...
- ...Foram as mesmas condições nas quais os Cultistas de Freya encontraram a nossa Freya. - Completou Leafar. - Ainda não explica o que faz vocês acharem que o caso dessa menina é o mesmo. Já ouviu falar do ditado dos sete sósias?
- Calma que tem a outra parte da história que o Johan me mandou. - Disse Cal, esticando os braços ao alto conforme se espreguiçava. - Essa é a vantagem de ter um membro da Ordem dos Assassinos como amigo, eles literalmente espionam as pessoas. E a garota tem comentado um bocado sobre sonhos estranhos com Valquírias... E dois Cavaleiros.
Os olhos de Leafar congelaram em Cal por um momento, então ele tornou a pegar as fotos da garota que estavam sobre a mesa. - Isso é loucura.
- Tão louco quanto enfrentar uma Valquíria porque você estava marcado pra morrer por uma profecia de Odin? Ou enfrentar uma versão entupida de steroids mágicos de seu próprio pai tentando se tornar o novo Demiurge? Ou melhor ainda, que tal falarmos dos eventos de três meses atrás--
- Não vamos conversar sobre isso. - Leafar interrompeu Cal prontamente, dando um olhar severo.
- O que eu estou dizendo - Resumiu Cal, sem cerimônia - é que isso é algo que talvez valha a pena ser visto. Qual é, vai me dizer que não está sequer cogitando a possibilidade dessa ser sua segunda chance?
- Não é assim que funciona, Cal. - Respondeu o louro. - Eu não quero uma substituta pra Freya.
- Não estamos falando de substituir pessoas. Estamos falando de redimir seus próprios erros.
Houve um silêncio tenso entre os dois naquele momento. Os dois se encararam por um momento. O caso de Freya Belmont sempre foi um assunto bastante delicado para Leafar e para Cal. Especialmente considerando o fato de que a morte da menina, dois anos antes, disparou duas lutas entre os dois, meses depois. Era um evento ainda fresco na memória dos dois, mas não o bastante para afetar a amizade que tinha começado a se formar a partir da segunda luta.
No fim das contas, Cal e Leafar haviam começado uma amizade a partir do único sentimento que os dois tinham em comum no momento: a dor pela perda de Freya. Cal acabou eventualmente conhecendo os demônios de Leafar, enquanto este viu Cal tendo que lidar com seus próprios demônios.
- Isso não é como você tentando consertar sua relação com a Irma ou se livrar dos antidepressivos. - Disse Leafar, se referindo a dois problemas com o qual Cal lidou no ano anterior. - É muito mais complicado que isso e você sabe disso. O que fizermos ali não vai trazer ela de volta.
- Mas vai impedir que uma outra versão dela surja. - A resposta de Cal foi o bastante pra convencer Leafar. - Você tem razão, isso não vai trazer a Freya de volta. Tampouco vai fazer você se sentir menos culpado pelo que aconteceu com ela. Mas é graças a essa merda toda que nós sabemos exatamente o que fazer com o caso seguinte: nós podemos tirar ela do alcance de quem pode ferir ou usar ela. E honestamente, você sabe que eu quero muito dar esse gosto amargo pra Niren.
Leafar permaneceu calado por mais um momento. Tornou a olhar para as fotos da menina, em especial uma em que ela estava com uma garota ruiva, de cabelos curtos, usando o mesmo uniforme de escola. - Não sei ainda se eu vou topar essa parada. Mas eu estou interessado em ver essa garota com meus próprios olhos.
A resposta de Leafar deixou um sorriso tranquilo em Cal. - Bom saber disso. 'Bora pra Geffen então?
Leafar acenou positivamente com a cabeça, guardando as fotos no bolso de sua jaqueta. Pegou os óculos azuis que havia deixado sobre a mesinha da sala de estar, e os dois finalmente se dirigiam para fora da sala.
A rota mais rápida para Geffen, para Cal, era usar a ajuda da Kafra que trabalhava na base, Alma, que não por coincidência, Leafar também já conhecia, do encontro com Cal em Moscóvia anos antes. Cal contaria com a ajuda dela para cortar caminho e teleportar direto para Geffen com Leafar.
Pelo caminho, Leafar parou por um momento, olhando para uma placa cheia de cartazes pendurados com tachinhas.
- Sabe, Cal, mais de um ano que eu conheço esse lugar e eu nunca realmente prestei atenção no que o seu clã faz. - Disse Leafar, se aproximando da placa e olhando para a imagem de um grande monstro roxo de quatro patas, com aparência similar ao que poderia ser descrito como a mistura de um touro com um leão. - Oficialmente vocês da Thurisaz são a contra-proposta tecnológica da Rekenber, certo? Mas eu fico olhando pra essa placa cheia de pedidos bizarros e não consigo deixar de ver similaridades com o que o Grupo Eden faz. Então... O que seu clã faz mesmo?
Cal deu outro sorriso confiante e se aproximou da placa, prestando atenção no cartaz de dito monstro roxo. Era conhecido como Behemoth, e ele estava causando problemas nos arredores de Geffen. Normalmente ele ficava na área frequentada pelos Grand Orcs, bem a oeste da cidade, mas desde que a área foi fechada após o Voluspá e a Renovação, o monstro deixou de ter medo até dos Orcs que viviam no local e passou a atacar pessoas andando pelas proximidades de Geffen e Glast Heim, cada vez mais perto da Cidade da Magia. Isso fez com que um membro da Guilda dos Magos postasse essa petição para que alguém trouxesse um fim à ameaça.
- O que fazemos - Cal dizia, pegando o papel com a petição do Behemoth - é justamente o que o Grupo Eden não tem a capacidade pra fazer.
Introdução normal
Academia Rodworth, na frente do portão, 12:41.
O tempo parecia andar muito lentamente para Selena. Tão lento quanto o deslocamento dos continentes, se ela pudesse naquele momento dar uma descrição para o frio na barriga que ela estava sentindo com relação a isso. Era a ansiedade de não saber o que iria acontecer em seguida, porque ela havia acabado de comprar uma briga com Felicia Hardy, basicamente a garota mais agressiva do colégio.
Mia apenas olhava para Selena, apreensiva. Normalmente era ela quem tirava a garota de olhos bicolores de encrenca, mas Selena havia insistido para fazer as coisas sozinha dessa vez. Lutar sozinha.
O problema era que Selena não sabia lutar sozinha. Ou sequer sabia lutar. Ela não levava o menor jeito para a coisa. E agora Mia podia se imaginar carregando Selena para o hospital, depois da garota levar uma surra pesada de Felicia. E como se não fosse o bastante, havia uma plateia para assistir o evento, uma vez que poucos alunos podiam espalhar o anúncio de uma briga de garotas como um vírus tomando um computador.
Se já não havia silêncio naquele momento, o barulho apenas aumentou quando dita garota finalmente chegou ao local indicado. Olhos verdes, cabelos louros, quase prateados. O físico era robusto, mas não o bastante para que ela fosse musculosa ou gorda. Felicia estava finalmente no recinto, e Selena não tinha a menor ideia do que fazer para se livrar dessa situação.
- Espero que já tenha reservado sua vaga num quarto de hospital para a próxima semana, Selena. - Disse Felicia. - Porque aqui, fora do colégio, eu posso fazer o que eu quiser com você.
Não houve reação da menina de cabelos castanhos. Ela estava paralisada naquele momento, muito provavelmente por medo. Felicia prosseguiu. - Que ótimo, já podemos começar.
E a loura avançou. E Selena ainda parecia parada no tempo. Felicia mandou um cruzado de esquerda, mas por algum motivo, Selena sentiu seu corpo se atirando para a esquerda, como se outra coisa a comandasse a se esquivar. Apenas quando sua oponente emendou o primeiro soco com um segundo aplicado com sucesso contra o estômago de Selena, foi que esta finalmente saiu do transe.
Os olhos de Selena arregalaram conforme ela sentia o golpe acertar o estômago e reverberar pelo resto do corpo, enquanto Felicia levantou um sorriso sinistro pelo lado direito da garota. Tirou prontamente o punho do estômago e empurrou a mesma palma contra o peito de sua oponente, forçando-a para trás e esperando que ela caísse sentada no chão. Não foi o que aconteceu, uma vez que Selena por algum motivo retomou o equilíbrio do corpo.
E então, sem muita explicação, o punho direito de Selena fechou, ignorado por uma Felicia já certa de sua vitória.
- Se isso é tudo o que você pode fazer, eu já-- Felicia foi prontamente surpreendida por uma ação rápida de Selena, um soco de direita que ela mesma não sabia como havia desferido. Um soco que conseguiu fazer Felicia dobrar para a sua direita, olhando para o vazio em choque.
Naquele momento, todos ao redor olharam espantados para a cena. Selena havia conseguido acertar um soco, mesmo que torto, em Felicia. Esta ficou parada, naquela posição, por alguns segundos, perplexa pelo evento. E então seus olhos vergaram para a fúria e se voltaram para Selena. A jovem não teve muito tempo para reagir, conforme Felicia finalmente avançava para cima, sem dizer mais nada.
Selena conseguiu esquivar do primeiro soco, mas era lenta demais para fugir de uma sequência, e o punho direito de Felicia encontrou rapidamente com o rosto da garota. Felicia, porém, continuava muda, furiosa, e agarru Selena pela manga esquerda da camisa, puxando-a de volta para sua fúria. Selena sentiu a joelhada forte em seu estômago lhe tirar o ar por alguns segundos, ignorando o fato de que sua oponente agora lhe segurava pela camisa.
Mia cerrou os punhos e ameaçou avançar, mas Selena ainda tinha forças pra falar e freou Mia à distância. - Não entra nessa briga, eu posso fazer isso!
Selena se recobrou e tentou reagir, mas Felicia a empurrou com força, derrubando-a no chão. Não houve tempo para ela se levantar; sua agressora imediatamente desceu em cima dela, puxando-a pela gravata e disparando um forte soco de direita. Selena então sentiu sua consciência deslizar para fora do mundo real por um instante, e então voltar, com a visão borrada, sem saber se era pelas lágrimas ou pelo choque do golpe que havia acabado de levar. Selena ainda conseguia sentir a gravata ainda na mão esquerda de Felicia, indicação de que ela iria continuar batendo nela até que sua consciência se esvaísse.. Ou algo maior e pior acontecesse.
A plateia, que antes estava excitada pela luta que ocorria ali, agora havia ficado completamente quieta, sem saber como reagir ao novo nível de violência. Naquele momento, Mia já não conseguia mais se conter. Ela finalmente deu um passo adiante, se preparando para avançar, quando um homem de jaqueta de couro marrom passou na sua frente, avançando em direção à dupla que lutava.
Selena manteve os olhos fechados, sentindo a dor forte do soco. Esperava pelo próximo, mas ele não veio. Ela se esforçou para abrir os olhos e notar que o braço direito de Felicia agora era segurado pela mão direita de um louro de jaqueta e um olhar perfurante, direcionado à agressora.
- Essa palhaçada acaba aqui. - Disse o homem. - Desmonta da garota, agora.
- Quem você pensa que é para me interromper dessa... - A voz de Felicia morreu ao instante em que ela finalmente encontrou seus olhos com o rosto daquele homem.
- Eu sou o cara pra quem o Rei Ernst reclama quando uma estátua de mármore fica três centímetros fora do lugar. - Disse ele, levantando a cabeça e removendo seu rosto das sombras, revelando os olhos castanhos. - Também conhecido como Cal Rasen, obrigado.
Selena congelou ali. Desde seu estômago, passando por seus pulmões e chegando aos seus olhos, travados naquele que era conhecido como o Blitzritter.
Era justamente uma das pessoas sobre as quais ela e Mia estavam conversando antes de toda a bagunça da briga com Felicia começar.
Mia estava igualmente impotente diante daquela cena. Jamais imaginaria que Cal Rasen fosse maluco o bastante de se aproximar da escola onde estudava. Mia havia dito que estava acompanhando algumas das lutas de Cal, mas a verdade é que a garota havia acabado criando certa fascinação pela determinação do Blitzritter. O suficiente para que ela mesma tivesse resolvido começar a treinar por conta própria.
- Eu sou Felicia Hardy, filha de... - Cal não quis nem saber e interrompeu a garota de novo.
- É o seguinte, Gata Negra, ou você sai de cima dessa garota, ou eu vou ensinar ela a brigar... Usando você como boneco de treinamento. - A voz de Cal, apesar da piada, era séria o bastante. Felicia finalmente soltou a gravata de Selena, cuja cabeça pousou ao chão dos poucos centímetros de altura ao qual havia sido puxada.
Os outros alunos ao redor da cena estavam confusos. No minuto anterior, Selena estava prestes a ser trucidada por uma garota muito mais experiente que ela numa briga. E agora, como que por mágica, Cal Rasen, o Blitzritter, líder da Thurisaz, estava tirando a menina da encrenca quase como se tivesse sido chamado ao local. A verdade era que Cal havia ido até a escola de propósito... Só não esperava ter se deparado com uma briga típica entre bully e garota impopular.
Felicia se afastou de Cal, deixando soltar de canto um "Isso ainda não acabou", que não passou despercebido ao Cavaleiro Rúnico. Cal, porém, apenas ignorou aquilo e procedeu. - O circo acabou, podem ir pra casa.
Os outros alunos, com exceção de Mia, ainda estupefata, se afastaram do local, deixando Selena em paz. Esta, ainda deitada no chão, estava sem reação, olhando fixamente para Cal, que estendeu a mão direita para ajudá-la a se levantar.
- É, o olho esquerdo vai ficar roxo por uns dias, mas você vai ficar bem. - Selena se esforçou para abrir o olho esquerdo naquele momento, enquanto estendia o braço para se levantar com ajuda de Cal.
Naquele momento, o Cavaleiro conseguiu ver claramente a cor dos dois olhos da garota. O olho direito era de um azul real, vivo. O esquerdo, um amarelo vivo, dourado, brilhante. Não ajudava que o penteado da garota, normalmente com duas mechas de cabelo jogadas para a frente em cada lado do rosto, a tornasse quase que um "recolor" de Freya.
E então, ao finalmente conseguir ficar de pé, Selena notou que Cal agora olhava estático para ela. Ela nem se importou em ajeitar o uniforme, reparando apenas no fato de que o Cavaleiro Rúnico a olhava como quem olhava para o fantasma de um ente querido morto. Cal, enquanto isso, estava totalmente fixo no rosto da menina. Até as feições eram ridiculamente similares, ainda que não as mesmas.
A menina estava assustada com o evento, mas por outro motivo. Agora ela estava cara a cara com um dos homens de seu sonho. Não era mais uma imagem borrada, envolta em energia; Cal Rasen estava diante dela, ao vivo, em cores. Não foi difícil o Cavaleiro Rúnico finalmente notar o olhar dela de que ela já o conhecia de algum lugar.
"Então o lance dos sonhos era verdade", ele pensava consigo mesmo. Ele finalmente saiu daquele momento e retomou sua compostura de sempre, dando um sorriso simples. - Você definitivamente precisa aprender a lutar. Não pode simplesmente deixar sua adrenalina fazer o trabalho.
Selena permaneceu quieta, apenas olhando para Cal, que finalmente deu meia volta e saiu andando calmamente, ao qual Mia finalmente reagiu. - Ei, espera. Você sabe alguma coisa sobre Valquírias?
Cal já havia passado pela ruiva quando a pergunta dela o parou. Cal olhou de canto para ela e deu sua resposta. - O que eu sei é que elas não costumam ser boas notícias. Sugiro que não procurem por uma.
Cal retomou seu caminho, enquanto Mia olhava para ele, sem entender a resposta. Ela preferiu não insistir; havia uma outra situação em mãos agora. Ela notou Selena parada, ainda no estado em que havia acabado de sair daquela briga. Mia então caminhou para a amiga. - Vem, vamos cuidar do olho roxo.
Selena saiu daquele transe naquele momento e passou a seguir Mia na direção oposta à da qual Cal estava andando.
Enquanto isso, o Cavaleiro do Relâmpago, já distante das duas, agora estava próximo a um perplexo Leafar. Passou por ele, e parou, costa a costa com o Dragão. - E aí, o que acha?
Os olhos verdes do louro estavam vidrados. Era uma versão pior da reação que Cal teve. Leafar não tinha visto apenas uma cópia de Freya na garota, mesmo à distância; aos olhos dele, era quase como um fantasma dela, em todos os sentidos.
- ...É a própria imagem dela. Cores diferentes, mas eu reconheceria aquele rosto em qualquer canto do planeta. - Os dois permaneceram parados por um instante até que a mente de Leafar começou a gradualmente sair do choque. - Cal. Que merda é aquela?
- Essa merda - Respondeu Cal - muito provavelmente é outra Valquíria vivendo como uma humana. Chame de teoria louca, do que quiser, mas a reação dela a mim foi bem real.
- A essa altura do campeonato, loucura é algo que eu posso chamar de estilo de vida. - Reagiu Leafar, olhando para as duas garotas ao longe, antes de dobrarem a esquina e desaparecerem na cidade.
O dia havia apenas começado para os dois Cavaleiros Rúnicos.
OFF
Introdução normal
Viridis
Capítulo 2: Primeiro Contato
Academia Rodworth, na frente do portão, 12:41.
O tempo parecia andar muito lentamente para Selena. Tão lento quanto o deslocamento dos continentes, se ela pudesse naquele momento dar uma descrição para o frio na barriga que ela estava sentindo com relação a isso. Era a ansiedade de não saber o que iria acontecer em seguida, porque ela havia acabado de comprar uma briga com Felicia Hardy, basicamente a garota mais agressiva do colégio.
Mia apenas olhava para Selena, apreensiva. Normalmente era ela quem tirava a garota de olhos bicolores de encrenca, mas Selena havia insistido para fazer as coisas sozinha dessa vez. Lutar sozinha.
O problema era que Selena não sabia lutar sozinha. Ou sequer sabia lutar. Ela não levava o menor jeito para a coisa. E agora Mia podia se imaginar carregando Selena para o hospital, depois da garota levar uma surra pesada de Felicia. E como se não fosse o bastante, havia uma plateia para assistir o evento, uma vez que poucos alunos podiam espalhar o anúncio de uma briga de garotas como um vírus tomando um computador.
Se já não havia silêncio naquele momento, o barulho apenas aumentou quando dita garota finalmente chegou ao local indicado. Olhos verdes, cabelos louros, quase prateados. O físico era robusto, mas não o bastante para que ela fosse musculosa ou gorda. Felicia estava finalmente no recinto, e Selena não tinha a menor ideia do que fazer para se livrar dessa situação.
- Espero que já tenha reservado sua vaga num quarto de hospital para a próxima semana, Selena. - Disse Felicia. - Porque aqui, fora do colégio, eu posso fazer o que eu quiser com você.
Não houve reação da menina de cabelos castanhos. Ela estava paralisada naquele momento, muito provavelmente por medo. Felicia prosseguiu. - Que ótimo, já podemos começar.
E a loura avançou. E Selena ainda parecia parada no tempo. Felicia mandou um cruzado de esquerda, mas por algum motivo, Selena sentiu seu corpo se atirando para a esquerda, como se outra coisa a comandasse a se esquivar. Apenas quando sua oponente emendou o primeiro soco com um segundo aplicado com sucesso contra o estômago de Selena, foi que esta finalmente saiu do transe.
Os olhos de Selena arregalaram conforme ela sentia o golpe acertar o estômago e reverberar pelo resto do corpo, enquanto Felicia levantou um sorriso sinistro pelo lado direito da garota. Tirou prontamente o punho do estômago e empurrou a mesma palma contra o peito de sua oponente, forçando-a para trás e esperando que ela caísse sentada no chão. Não foi o que aconteceu, uma vez que Selena por algum motivo retomou o equilíbrio do corpo.
E então, sem muita explicação, o punho direito de Selena fechou, ignorado por uma Felicia já certa de sua vitória.
- Se isso é tudo o que você pode fazer, eu já-- Felicia foi prontamente surpreendida por uma ação rápida de Selena, um soco de direita que ela mesma não sabia como havia desferido. Um soco que conseguiu fazer Felicia dobrar para a sua direita, olhando para o vazio em choque.
Naquele momento, todos ao redor olharam espantados para a cena. Selena havia conseguido acertar um soco, mesmo que torto, em Felicia. Esta ficou parada, naquela posição, por alguns segundos, perplexa pelo evento. E então seus olhos vergaram para a fúria e se voltaram para Selena. A jovem não teve muito tempo para reagir, conforme Felicia finalmente avançava para cima, sem dizer mais nada.
Selena conseguiu esquivar do primeiro soco, mas era lenta demais para fugir de uma sequência, e o punho direito de Felicia encontrou rapidamente com o rosto da garota. Felicia, porém, continuava muda, furiosa, e agarru Selena pela manga esquerda da camisa, puxando-a de volta para sua fúria. Selena sentiu a joelhada forte em seu estômago lhe tirar o ar por alguns segundos, ignorando o fato de que sua oponente agora lhe segurava pela camisa.
Mia cerrou os punhos e ameaçou avançar, mas Selena ainda tinha forças pra falar e freou Mia à distância. - Não entra nessa briga, eu posso fazer isso!
Selena se recobrou e tentou reagir, mas Felicia a empurrou com força, derrubando-a no chão. Não houve tempo para ela se levantar; sua agressora imediatamente desceu em cima dela, puxando-a pela gravata e disparando um forte soco de direita. Selena então sentiu sua consciência deslizar para fora do mundo real por um instante, e então voltar, com a visão borrada, sem saber se era pelas lágrimas ou pelo choque do golpe que havia acabado de levar. Selena ainda conseguia sentir a gravata ainda na mão esquerda de Felicia, indicação de que ela iria continuar batendo nela até que sua consciência se esvaísse.. Ou algo maior e pior acontecesse.
A plateia, que antes estava excitada pela luta que ocorria ali, agora havia ficado completamente quieta, sem saber como reagir ao novo nível de violência. Naquele momento, Mia já não conseguia mais se conter. Ela finalmente deu um passo adiante, se preparando para avançar, quando um homem de jaqueta de couro marrom passou na sua frente, avançando em direção à dupla que lutava.
Selena manteve os olhos fechados, sentindo a dor forte do soco. Esperava pelo próximo, mas ele não veio. Ela se esforçou para abrir os olhos e notar que o braço direito de Felicia agora era segurado pela mão direita de um louro de jaqueta e um olhar perfurante, direcionado à agressora.
- Essa palhaçada acaba aqui. - Disse o homem. - Desmonta da garota, agora.
- Quem você pensa que é para me interromper dessa... - A voz de Felicia morreu ao instante em que ela finalmente encontrou seus olhos com o rosto daquele homem.
- Eu sou o cara pra quem o Rei Ernst reclama quando uma estátua de mármore fica três centímetros fora do lugar. - Disse ele, levantando a cabeça e removendo seu rosto das sombras, revelando os olhos castanhos. - Também conhecido como Cal Rasen, obrigado.
Selena congelou ali. Desde seu estômago, passando por seus pulmões e chegando aos seus olhos, travados naquele que era conhecido como o Blitzritter.
Era justamente uma das pessoas sobre as quais ela e Mia estavam conversando antes de toda a bagunça da briga com Felicia começar.
Mia estava igualmente impotente diante daquela cena. Jamais imaginaria que Cal Rasen fosse maluco o bastante de se aproximar da escola onde estudava. Mia havia dito que estava acompanhando algumas das lutas de Cal, mas a verdade é que a garota havia acabado criando certa fascinação pela determinação do Blitzritter. O suficiente para que ela mesma tivesse resolvido começar a treinar por conta própria.
- Eu sou Felicia Hardy, filha de... - Cal não quis nem saber e interrompeu a garota de novo.
- É o seguinte, Gata Negra, ou você sai de cima dessa garota, ou eu vou ensinar ela a brigar... Usando você como boneco de treinamento. - A voz de Cal, apesar da piada, era séria o bastante. Felicia finalmente soltou a gravata de Selena, cuja cabeça pousou ao chão dos poucos centímetros de altura ao qual havia sido puxada.
Os outros alunos ao redor da cena estavam confusos. No minuto anterior, Selena estava prestes a ser trucidada por uma garota muito mais experiente que ela numa briga. E agora, como que por mágica, Cal Rasen, o Blitzritter, líder da Thurisaz, estava tirando a menina da encrenca quase como se tivesse sido chamado ao local. A verdade era que Cal havia ido até a escola de propósito... Só não esperava ter se deparado com uma briga típica entre bully e garota impopular.
Felicia se afastou de Cal, deixando soltar de canto um "Isso ainda não acabou", que não passou despercebido ao Cavaleiro Rúnico. Cal, porém, apenas ignorou aquilo e procedeu. - O circo acabou, podem ir pra casa.
Os outros alunos, com exceção de Mia, ainda estupefata, se afastaram do local, deixando Selena em paz. Esta, ainda deitada no chão, estava sem reação, olhando fixamente para Cal, que estendeu a mão direita para ajudá-la a se levantar.
- É, o olho esquerdo vai ficar roxo por uns dias, mas você vai ficar bem. - Selena se esforçou para abrir o olho esquerdo naquele momento, enquanto estendia o braço para se levantar com ajuda de Cal.
Naquele momento, o Cavaleiro conseguiu ver claramente a cor dos dois olhos da garota. O olho direito era de um azul real, vivo. O esquerdo, um amarelo vivo, dourado, brilhante. Não ajudava que o penteado da garota, normalmente com duas mechas de cabelo jogadas para a frente em cada lado do rosto, a tornasse quase que um "recolor" de Freya.
E então, ao finalmente conseguir ficar de pé, Selena notou que Cal agora olhava estático para ela. Ela nem se importou em ajeitar o uniforme, reparando apenas no fato de que o Cavaleiro Rúnico a olhava como quem olhava para o fantasma de um ente querido morto. Cal, enquanto isso, estava totalmente fixo no rosto da menina. Até as feições eram ridiculamente similares, ainda que não as mesmas.
A menina estava assustada com o evento, mas por outro motivo. Agora ela estava cara a cara com um dos homens de seu sonho. Não era mais uma imagem borrada, envolta em energia; Cal Rasen estava diante dela, ao vivo, em cores. Não foi difícil o Cavaleiro Rúnico finalmente notar o olhar dela de que ela já o conhecia de algum lugar.
"Então o lance dos sonhos era verdade", ele pensava consigo mesmo. Ele finalmente saiu daquele momento e retomou sua compostura de sempre, dando um sorriso simples. - Você definitivamente precisa aprender a lutar. Não pode simplesmente deixar sua adrenalina fazer o trabalho.
Selena permaneceu quieta, apenas olhando para Cal, que finalmente deu meia volta e saiu andando calmamente, ao qual Mia finalmente reagiu. - Ei, espera. Você sabe alguma coisa sobre Valquírias?
Cal já havia passado pela ruiva quando a pergunta dela o parou. Cal olhou de canto para ela e deu sua resposta. - O que eu sei é que elas não costumam ser boas notícias. Sugiro que não procurem por uma.
Cal retomou seu caminho, enquanto Mia olhava para ele, sem entender a resposta. Ela preferiu não insistir; havia uma outra situação em mãos agora. Ela notou Selena parada, ainda no estado em que havia acabado de sair daquela briga. Mia então caminhou para a amiga. - Vem, vamos cuidar do olho roxo.
Selena saiu daquele transe naquele momento e passou a seguir Mia na direção oposta à da qual Cal estava andando.
Enquanto isso, o Cavaleiro do Relâmpago, já distante das duas, agora estava próximo a um perplexo Leafar. Passou por ele, e parou, costa a costa com o Dragão. - E aí, o que acha?
Os olhos verdes do louro estavam vidrados. Era uma versão pior da reação que Cal teve. Leafar não tinha visto apenas uma cópia de Freya na garota, mesmo à distância; aos olhos dele, era quase como um fantasma dela, em todos os sentidos.
- ...É a própria imagem dela. Cores diferentes, mas eu reconheceria aquele rosto em qualquer canto do planeta. - Os dois permaneceram parados por um instante até que a mente de Leafar começou a gradualmente sair do choque. - Cal. Que merda é aquela?
- Essa merda - Respondeu Cal - muito provavelmente é outra Valquíria vivendo como uma humana. Chame de teoria louca, do que quiser, mas a reação dela a mim foi bem real.
- A essa altura do campeonato, loucura é algo que eu posso chamar de estilo de vida. - Reagiu Leafar, olhando para as duas garotas ao longe, antes de dobrarem a esquina e desaparecerem na cidade.
O dia havia apenas começado para os dois Cavaleiros Rúnicos.
OFF
Demorou um bocado e pelo visto eu vou ter que deixar pro Rafa avaliar um capítulo postado, mas eu já tinha esse aqui armado.
E o Rafa tem me dado mais confiança pra escrever o material baseado no Leafar, e eu dou a sorte de ter amplo conhecimento do trabalho e dos eventos em torno dele.
Uma coisa que eu notei conforme eu relia o que eu escrevi é como eu acabei criando um Cal Rasen bem mais experiente também, um que já sabe melhor o que fazer, mais calmo, menos raivoso. E pensar que eu estou a escrever o terceiro capítulo de Escaleno, relatando justamente um Cal oposto ao que era, mais de um ano antes dos eventos de Viridis.
Enfim...
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