terça-feira, 4 de agosto de 2015

Viridis: Capítulo 1: Selena

11 de Fevereiro de 1013, Savana de Ida, área do Aeroporto.

O Aeroporto de Arunafeltz ficava pouco a leste da cidade de Rachel, já adentrando a Savana de Ida. O Aeroporto tinha que ser constantemente protegido por guardas, devido ao local se situar numa área onde residiam Roweens, suricates velozes, fortes e extremamente territoriais, que compõem uma parte da fauna de Arunafeltz, e Anopheles, enxames de insetos que coagiam entre si de forma a obter alimento de animais azarados o bastante para perderem um confronto com eles.

Andando calmamente entre os aventureiros que se dispunham a caçar os Roweens, seja para um serviço do Grupo Eden ou meramente por treinamento, Cal estava se dirigindo ao Aeroporto para pegar seu rumo de volta a Izlude, onde se encontrava a base de seu grupo, a Thurisaz.

Na mente de Cal, apenas a imagem daquela foto que Johan havia lhe mostrado dias atrás, de uma menina de cabelos castanhos extremamente similar a Freya Belmont em todos os detalhes - inclusive os olhos de cores diferentes - ocupava um espaço significante. Nos dias anteriores, Cal foi praticamente incapaz de tirar aquela imagem da cabeça.

Ao chegar ao Aeroporto, ele foi recebido por duas garotas. Uma delas, de cabelos e olhos castanhos, trajando um vestido de cor vermelha, facilmente notável pelas mangas destacadas e gravata; a outra, de cabelos pretos, camisa branca, gravata preta. Os olhos castanhos brilharam ao ver o Cavaleiro Rúnico subindo as escadas do aeroporto.

Aquelas eram, respectivamente, Irma Aloisius e Eva Heins. Uma era a irmã adotada de Cal e a outra era sua namorada. E eram as pessoas mais próximas dele. Cal não ficou surpreso quando uma delas correu para abraçá-lo. - Cal!

- Hey, bom ver vocês de novo. - Disse Cal, se soltando do abraço de Eva. - Talvez tenha sido uma boa coisa o Johan aparecer; eu tava começando a pirar naquele vulcão.

- Cal, o que exatamente está acontecendo? - Foi a vez de Irma falar. - Eu entendo porque você sumiu pra treinar dessa vez, mas de repente você decide que vai voltar à atividade na Thurisaz. Você encontrou com o Leafar de novo, por acaso?

Irma sabia que era preciso alguma coisa forte para tirar o Cal de sua rotina. A aposta dela era algo que novamente envolvesse Leafar, tal como aconteceu diversas vezes em 1011, e mais uma vez três meses antes, em um outro evento em 1012.

- Bem, sobre isso... É, aconteceu alguma coisa, sim. O Leafar tem envolvimento nisso, mas dessa vez sou eu quem vai arrastar ele pro tornado.

Eva tomou a palavra. E já havia notado a diferença no olhar dele. - Espera. Cal, como assim, está envolvendo o Leafar nisso? Eu pensei que ele tivesse dito que estava querendo se afastar de tudo o que conhecia em Rune-Midgard.

- Pois é. O lance é que surgiu uma coisa. Um alguém. - Respondeu Cal.

- Que tipo de alguém? - Reagiu Eva, agora com um tom mais sério.

Cal deu um sorriso sarcástico, olhou para o lado, e então de volta para as duas. - Pelo que parece, outra Valquíria.

Os olhares e expressões das duas congelaram diante da resposta de Cal. Estavam descrentes do que haviam acabado de ouvir. Cal ainda acrescentou, para o choque das duas.

- E pra completar a piada, ela é quase idêntica à Freya.




Introdução normal: So Fast, So Numb - REM



Viridis

Capítulo 1: Selena


Era novamente o mesmo sonho. O mesmo mundo bizarro. A mesma Valquíria aparecendo diante dela. O mesmo ataque rasante na direção da garota. Mas alguma coisa estava diferente naquele sonho também.

Tão logo a Valquíria avançou sobre ela, ela se viu em um novo plano. E então, como monitores de televisão recebendo interferência de algum sinal de rádio, ela via fantasmas passado ao redor dela. A interferência foi ficando cada vez mais forte, o som cada vez mais alto, quase como se quisesse furar seus ouvidos. Até que parou.

E ela agora se via pisando sobre o que parecia ser um mar de luzes num ambiente negro. À frente dela, os mesmos dois Cavaleiros de seus outros sonhos. Dessa vez, ela não estava com medo. Ela queria respostas.

- O que vocês querem de mim? - Indagou a garota, em voz alta.

Os dois começaram a caminhar na direção dela. Finalmente aqueles dois seres mostravam uma aparência que ela conseguia distinguir. Não haviam cores, mas suas formas, seus traços eram claramente visíveis. Um deles, de cabelos escorridos, trajando uma jaqueta comprida, com uma camiseta e jeans, tinha seu corpo composto de uma luz azul. O outro, usando o que certamente era a armadura de um Cavaleiro Rúnico, com cristais nos ombros, tinha cabelos repartidos no meio, semi-compridos, e um olhar determinado, com seu corpo feito de luz verde. Ambos não aparentavam estar acima dos 25 anos de idade. A garota podia notar a espada de cristal nas costas daquele homem de armadura.

Esses dois passaram por ela sem dizer nada, até que finalmente a mesma Valquíria apareceu de novo, emergindo do mar de luz. E pela primeira vez, a garota caminhou na direção dela.

Era finalmente possível ver através da luz, a sua aparência, as cores de seus olhos, um vermelho e outro azul. A garota estava assustada, especialmente ao notar que a Valquíria era quase uma cópia carbônica dela em aparência, não fosse os cabelos louros.

- Você tem um legado a cumprir. - Disse a Valquíria.

- Mas que legado? - Indagou a garota, assustada. - Eu não consigo entender! Porque apenas eu tenho esses sonhos? Porque eles estão piorando a cada dia?

Tão logo a garota fez sua questão, a Valquíria começou a emitir uma luz forte. Esta luz começou a engolir todo o ambiente ao redor e, eventualmente, a garota, que agora estava ainda mais confusa.

- Esta é a sua escolha a ser feita. Você precisa decidir o que fazer agora, Selena. - Disse a Valquíria, conforme a luz finalmente a tragava.

E por alguns segundos, ela ouviu a voz chamando seu próprio nome em um eco,
até que sua mente fosse finalmente trazida de volta ao mundo real, e a voz da Valquíria se transformasse numa voz humana que ela podia facilmente reconhecer.

- Selena!

Ela finalmente acordou. Mas não era a calada da noite. Ou mesmo seu quarto. Ou sequer era um ambiente perfeitamente quieto. Ela estava em uma sala de aula. Quase ao final da manhã. Com os alunos e a professora ao seu redor.

Seu torso automaticamente se ejetou da carteira de volta a posição ereta, seus olhos girando ao redor e prestando atenção na situação ao redor. A professora que a chamou conseguiu voltar toda a atenção da sala de aula para Selena.

- Só porque o diretor da Academia Rodworth cuida de seu bem-estar, não lhe dá o direito de dormir na sala de aula, mocinha. - Bradou furiosa a senhora de meia-idade.

De fato, ela não estudava em qualquer escola. Bastava ver os uniformes, camisas brancas, gravatas listradas vermelhas, as meninas usando saias xadrez com vermelho como a cor principal.

- Sinto muito, Senhora Miller, eu tenho tido problemas pra dormir ultimamente. - Respondeu Selena, na única reação que ela poderia dar sem aumentar o constrangimento daquele momento.

Na carteira à direita de Selena, outra garota parecia apenas assistir a situação da menina de catorze anos.  Cabelos ruivos, num vermelho flamejante, repartidos quase diagonalmente, deixando uma franja descer pelo lado esquerdo do rosto, olhos castanhos fortes. Permanecia quieta enquanto a adolescente a seu lado se desculpava com a professora.

- Muito bem, mocinha. Eu vou deixar passar apenas desta vez. Mas teremos uma conversa ao final desta aula. - Disse a professora, num tom cauteloso.

Selena levantou as mãos ao rosto por alguns segundos, ainda recobrando a consciência, e então voltou a se focar na sua carteira. "Okay, Selena. Só mais uma sessão imbecil desse sonho.", ela pensava.


Uma hora se passou e a aula acabou. Selena tinha acabado de levar um sermão da professora Miller. Não era surpresa para ela. A menina tinha boas notas em média, mas sua média estava começando a cair, graças às recentes noites mal dormidas causadas pelo mesmo sonho.

A garota agora se encontrava nos armários da escola, alheia ao mundo passando ao redor dela. Guardou seu material, fechou o armário. Deixou a testa pairar sobre a porta de metal, quase inerte. Afrouxou a gravata e ficou parada ali, por alguns minutos. E então uma pessoa parou ao lado dela, a mesma garota ruiva da sala de aula.

- Parabéns, Selena. A terceira ocorrência dessa cena em uma semana. - Disse a ruiva, encostando no seu próprio armário com o ombro direito e com os braços cruzados. Selena finalmente se virou para falar com ela. - Aquele sonho de novo? O padrão já tá ficando chato.


- Mia, eu não acho que estou em condição de discutir isso. - Respondeu Selena.

Mia LeFevre era basicamente a única pessoa com quem Selena andava. Desde que ela foi admitida no colégio, três anos antes, quando foi acolhida pelo diretor Rodney, Mia foi basicamente uma das poucas amizades que Selena fez e manteve.

O que gerava reputação, pois Mia não era exatamente conhecida entre alunos, de qualquer sexo, por ser uma pessoa "feminina". Ela não era gay, mas certamente agia muito mais como um garoto do que alguns garotos da mesma classe. Um interessante contraste a Selena, uma dócil menina... Que tentava se virar sozinha a todo custo.

- Tá, e quando vai começar a discutir isso, Selena? - Argumentou Mia. - Quando você finalmente entrar em estado de total insônia? Você ao menos tentou processar o significado dessa bizarrice?

- Não é isso, é só... - Ela estava tendo problemas em encontrar as palavras certas. - ...Tá ficando cada vez mais difícil tirar essa porcaria da cabeça.

Os sonhos não eram novidade para nenhuma das duas. Haviam começado cerca de um ano antes, primeiro como cenas quase ininteligíveis, e então ganhando forma e identidade. No começo, era apenas uma vez por mês, então começou a ser uma vez por semana... E atualmente ela tinha esse tipo de sonho noite sim, noite não. E agora com cada vez mais detalhes novos.

E alguns desses novos detalhes incomodavam. Selena via pessoas que ela nunca havia encontrado na vida, dentre elas, dois homens, Cavaleiros Rúnicos de cabelos claros, cuja cor era ofuscada pela luz emanando deles. Seus sonhos também sempre envolviam a aparição de uma Valquíria, que ao final voava na direção dela. Esses detalhes viviam fincados na mente da garota.

- Escuta... Lembra daqueles retratos falados que você tentou no outro dia? - Disse Mia, finalmente abrindo seu armário e pegando algumas fotos dele. - As pessoas com o perfil desses retratos existem.

Mia mostrou a Selena fotos impressas de ditas pessoas. O Cavaleiro do sonho era um jovem louro de olhos castanhos. Estava trajando uma armadura similar à do sonho, de tom metálico com cristais verdes. O outro, também louro, de olhos verdes, era amplamente conhecido em Geffen... Ou qualquer canto de Rune-Midgard. Selena imediatamente pegou as fotos da mão de Mia e começou a olhar fixamente para elas.

- É aí que vem a parte engraçada. O do olho verde é Leafar Belmont... Mas ele está morto já tem uns três meses. - Disse Mia, se recostando no armário. - O outro... Digamos que eu tenho acompanhado o circo dele no ano passado. Ele se chama Cal Rasen, é líder do clã que tem fornecido tecnologia ao Reino do ano retrasado pra cá. E tem adquirido um bocado de reputação nesse tempo. Ah sim, esse ainda está vivo, pelo que fiquei sabendo.

- Tem alguma coisa me dizendo que eu não deveria ter certeza sobre a parte de ele estar morto. - Disse Selena, no que dizia respeito a Leafar. Não era novidade a história de que ele havia morrido. - Quer dizer, não é nem a primeira vez que eu ouço essa história de "Leafar está morto". Não era assim até o começo do ano retrasado?

- Não me diga que você passou a acreditar naquelas lendas urbanas que meia dúzia de drogados tem falado. - Respondeu Mia ao argumento da jovem de cabelos castanhos.

- Olha só, se não é a queridinha do diretor.

A nova voz veio do corredor, alguns metros mais adiante. A menina de uniforme ali, desafiadora, de cabelos castanhos, olhos verdes, e aparentava estar ligeiramente acima do peso. Selena tinha má fama por ter sido, de certa forma, "adotada" pelo diretor Rodney, que a inseriu no colégio. Isso não apenas havia tornado os últimos três anos difíceis para ela, como forçava Mia a interferir em cada luta que metiam ela.

- E veio acompanhada de... "seu cavaleiro"? - Disse a mesma garota, desdenhando Mia. A ruiva imediatamente se prontificou a quase avançar para cima da jovem com o punho em riste, sendo parada por Selena.

- Você não vai poder ser identificada como mulher quando eu terminar com a sua cara! - Exclamava Mia, que queria a todo custo passar por Selena para atacar a recém-chegada.

- Porque vai frear a sua namorada, Selena? Ela pode fazer perfeitamente o trabalho de defender você. - Adicionou a garota. Foi o suficiente para Selena se virar, furiosa.

- Eu não preciso da Mia pra arrebentar a sua cara! - A resposta rápida e estúpida de Selena finalmente chamou a atenção das pessoas ao redor.

- Isso é um desafio? Porque você não me soa muito como um desafio. - Respondeu a garota. Mia finalmente levou a mão direita ao rosto em resposta ao que aparentava ser uma idiotice da parte de Selena. - Depois da escola, então. Pode ser na frente do portão mesmo.

A garota então saiu andando, confiante. - Você é minha, Selena.

Conforme a garota se afastava, o ânimo de Selena caía para desespero, agora que ela iria ter que enfrentar uma valentona para provar seu ponto. Mia finalmente tirou a mão de seu rosto e questionou a garota. - Então, pra quem tava tentando me impedir de entrar numa briga no meio desse corredor, você simplesmente conseguiu um espetáculo maior.

- Eu sei... - Disse Selena enquanto ela se deixava deslizar ao chão, com as duas mãos no rosto e uma expressão que claramente mostrava que ela estava se perguntando o que havia acabado de fazer.

- Tá legal, vamos andando. - Mia chamou novamente a atenção de Selena. - A gente pode resolver o lance das fotos depois, primeiro precisamos garantir que você saia viva dessa treta.





Base da Thurisaz, Izlude, 12:35.

Cal, Irma e Eva estavam finalmente de volta de Arunafeltz. Para as duas, foi apenas uma viagem rápida, mas para Cal, fazia meses que ele não via a cor de sua casa, a Arena de Izlude, que acabaria sendo convertida na base de seu clã.

O trio mal entrou no castelo e foi recebido no saguão por um Sicário, magro de cabelos castanhos lisos, uma franja escondendo o olho esquerdo. Estava encostado na parede, observando calmamente o ambiente, até que viu o Blitzritter chegando.

- Bem, se não é o cara que vai treinar sozinho toda vez que um amigo some do mapa. - Disse o Sicário. - Decidiu voltar e ficar em casa?

- Ainda bem que não foi em você que eu coloquei a pressão de liderar o clã. - Respondeu Cal. - Mas então, Takashi, Johan tem feito um trabalho que preste?

Takashi Ishikawa era o nome do Sicário. Um guerreiro de Amatsu que não possuía memórias de seu passado após transcender, vivia entre os serviços para a Ordem dos Assassinos, seu trabalhos para o mercador Karl Glassard, e as atividades da Thurisaz. Analítico ao extremo, sempre foi altamente observador do comportamento de Cal, especialmente depois de seu rompante onde saiu à caça de Leafar Belmont. Isso quase o motivou a deixar o clã na época.

- Tem segurado as pontas. - Respondeu Takashi. - Mas eu acho que você já tem uma pergunta pronta. Sim, ele chegou.

Takashi se referia ao fato de que Cal esperava que Leafar viesse até sua base. Não que houvesse um lugar melhor para estacionar; Cal estava ciente de que Leafar estava evitando a cidade de Geffen no momento, devido a ser amplamente conhecido na cidade.

Após mais alguma conversa, Cal se dirigiu sozinho à nova área de lazer que ele havia montado para essas ocasiões. Era logo após o lobby da base, numa entrada diretamente ao norte.

Lá, ele podia encontrar o Dragão louro, recostado calmamente em um dos sofás, com a cabeça voltada para o alto e de olhos fechados. - Normalmente você diria esperar ter um bom motivo pra eu te arrastar de volta pra cá, mas eu acho que você já viu aquela foto, não foi?

Leafar abriu os olhos e os virou para a direita, notando Cal. Depois de uma rápida espreguiçada, ele se levantou e se virou para o Cavaleiro do Relâmpago. - A Irma tinha razão, seu cabelo tá mesmo piorando.

Isso era uma referência ao fato de que o cabelo de Cal estava ainda maior que antes, agora com a franja repartida quase cobrindo os lados do rosto e seu cabelo passando da nuca.

- Podia ser pior, eu poderia estar usando óculos com lente de tinta colorida. - Retrucou Cal, notando o óculos escuro pendurado na camiseta que ele vestia por baixo daquela jaqueta azul.

Os dois trocaram olhares afiados por um momento e finalmente se cumprimentaram, apertando a mão um do outro. Era o primeiro encontro dos dois em meses. Em uma situação normal, Leafar recusaria o chamado de primeira, devido a querer evitar Rune-Midgard. Mas aquele era um caso especial.

Não era todo dia que uma pessoa com extrema similaridade a Freya Belmont aparecia nos arredores. E ele e Cal estavam interessados em saber o que estava acontecendo.


OFF




Bem, agora Viridis começa. Devem ter notado a diferença de ares entre os ambientes de Selena (uma escola cara) e de Cal (a costumeira base da Thurisaz). Era um plano desde que eu comecei a idealizar o Projeto Eir, uma garota aparentemente comum vivendo normalmente, e então o mundo dela virando ao contrário.

Mais futuramente, com o avançar da fic, eu vou explicar o que fez Leafar se afastar de Rune-Midgard ao final de 1012, bem como o que motivou Cal a entrar em treinamento pesado.

Se preparem, o Projeto Eir mal começou.

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